De onde vem tudo Isso - Histórias dos bastidores Parte I

Categoria: O MeC

Por Elisângela Aranda — 2026-04-22

De onde vem tudo Isso -  Histórias dos bastidores Parte I

Há muito tempo atrás, quase que em uma outra vida...

Eu cresci numa casa cheia de mulheres, tenho 04 irmãs, então eramos 05 meninas, minha mãe e mais meu pai. Minha mãe, uma leonina muito vaidosa, se chamava Vera Regina, que ironicamente se traduz do latim como "verdadeira Rainha;" Ela de fato reinava.

Porque eu estou aqui escrevendo sobre minha família e principalmente sobre minha mãe?! Esse não é um blog sobre gestão de negócios e empreendedorismo para mulheres? Sim, de fato é! Mas se não fossem as lições da dona Vera, uma empregada domestica analfabeta, mãe de cinco filhas, 03 vezes "casada" , que passou quase trinta anos casada com um marido (meu pai) que era uma pessoa maravilhosa, até... sentar em uma mesa de jogo.  Diferente de muitas familias no Brasil, eu tive pai presente, mas muitas vezes meu pai mais atrapalhou do que cuidou da familia. Ainda Assim, posso afirmar para vocês, foi uma infância de pouco, de apenas o suficiente, de muitas tias ajudando, contudo, foi uma infância feliz, nunca faltou um tempo de brincar, nem um teto, nem um prato de comida, nunca precisamos pedir ou ter de trabalhar na rua.

A Sabedoria de uma Rainha

Minha mãe nos ensinou a fazer as coisas por nós mesmas, ela dizia: " Voces tem de estudar e ganhar o próprio dinheiro e não depender de homem nenhum", tinham algumas frases que ela dizia muito - "se tu tá no fundo do poço, talvez, tu ache alguém pra ti ajudar, mas o mais certo e que tu vai ter de sair de lá sozinha" ou "Filha, não é errado ser pobre, não precisa ter vergonha de ser pobre, mas não ter dinheiro não é sinônino de sujeira nem de andar por ai mal vestida, pode ser uma roupa remendada, mas limpa e cheirosa."  A que eu mais gostava de ouvir era sobre inteligencia emocional e resiliencia - claro que ela não fazia ideia que ela falava sobre isso, nem eu na época sabia, mas era exatamente sobre isso. 


"Minha filha, o dia foi ruim, ta triste, ta com raiva, ta irritada, tem todo direito de estar, mas não desconta em quem não tem culpa. Chega em casa, grita, agarra o travesseiro e chora, chora até cansar se quiser, depois toma um bom banho morno e te prepara que no dia seguinte tu vai ter de enfrentar o problema e achar um jeito de resolver. Desespero e reclamção não resolvem nada. E se não tiver jeito de resolver, resolvido está e não pensa mais nisso".

Ancestralidade como base do empreender

Quando minha mãe,ao longo da nossa  jornada juntas (ela faleceu aos 52 anos de câncer, em 2002) nos ensinou sobre a vida e como deveriamos nos posicionar frente aos problemas, eu, na época não percebi tamanho do aprendizado sobre resiliência, inteligência emocional, pertencimento, empoderamento, persistência e acima de tudo, sobre coragem diante das problemáticas da vida.

Para ser uma mulher empreendedora de sucesso, é importante valorizar seus aprendizados pessoais e sua história de vida, não existe nada de extraordinário nas histórias que eu compartilho aqui com vocês. Contudo, foram essas vivências que me ensinaram a ser quem eu sou, a entender que sempre teremos alguma barreira, alguma dificuldade ou desafio a vencer, estamos vivos e a vida é complexa. O Importante é saber olhar para os problemas e analisar cada caso, sem se desesperar. Quando algo acontece, eu sempre me pergunto:

Consigo resolver sozinha? Vou precisar de ajuda para resolver isso? Posso contornar esse problema?

Como isso me afeta, é importante de verdade ou eu estou usando isso como desculpa para não sair da minha zona de conforto?

Sim, as vezes, o meu maior inimigo na hora de criar um negócio, de começar algo novo, de empreender, sou eu mesmo!

  • Não sei se eu faço assim, por onde será que eu começo?
  • Será que vai dar certo. Não sei se eu consigo.
  • Acho que estou fazendo tudo errado. Não me acho capaz.
  • Me sinto enganando as pessoas, porque eu não sou tudo isso.  

Essas inseguranças se tornam barreiras para começar ou para seguir adiante na hora da dificuldade. Eu aprendi a acreditar primeiro em mim, e que eu tenho de tentar, não deu certo... ok! Posso ficar triste, frustada, isso tudo faz parte do processo, nada de positividade tóxica - Estou ferrada e cheia de contas para pagar, mas tenho de ser positiva, mas sou sempre feliz "gratiluz" e tals... nada disso! Não jogamos as coisas ruins debaixo do tapete, não, não! A gente como empreendedora já tem muita coisa pra lidar, não precisamos de um adoecimento mental por fingir "estar tudo bem."

Empreender é emocionalmente conflitante, mas não penso em desistir. O Melhor a se fazer é repensar tudo o que foi feito e analisar de forma honesta e racional, assuma seus erros e falhas, é preciso acolher eles. Sim, vão ter erros, nos aprendemos com os erros (pelo menos deveria ser assim), mas não no sentido de se punir, se diminuir por ter errado, temos que usar os questionamentos de forma gentil e analitica para recomeçar. Questione-se: o que eu fiz e o que podia ter feito, e que eu posso fazer diferente, fazer melhor na próxima vez. Isso é crescimento, evolução e amadurecimento emocional.

De Onde Vem a Força de Empreender

Minha mãe me deixou uma herança que ninguém vê. A dona Vera, me deixou de herança algo precioso e único. Não foi dinheiro, não foi um negócio pronto, não foi um caminho sem pedras. Foi a capacidade de olhar para o caos e não se dissolver nele. De cair, chorar até cansar, tomar um banho morno e levantar no dia seguinte pronta para tentar de novo. Não permitir ser absorvida pelos problemas, nunca deixar que eles se tornassem monstros assustadores.

Ela não sabia o nome disso. Eu aprendi depois que se chama resiliência, inteligência emocional, mentalidade de crescimento. Mas pra mim, sempre foi só a voz da minha mãe dentro da minha cabeça, me lembrando que eu sou capaz.

E é por isso que quando falo sobre empreendedorismo aqui no Mulheres em Convergência, não começo pelos números, pelas ferramentas ou pelas estratégias. Começo pela mulher. Pela sua história. Pela sua ancestralidade.

Porque antes de qualquer planilha, antes de qualquer plano de negócios, existe uma mulher com uma história que a trouxe até aqui. E essa história é a fundação mais sólida que qualquer negócio pode ter.

Então antes de me perguntar qual ferramenta usar, qual curso fazer, qual estratégia aplicar — te faço uma pergunta diferente: você já parou para reconhecer o quanto a sua trajetória já te ensinou? O quanto você já superou? O quanto você já é?

Me conta aqui nos comentários: qual foi a maior lição que a sua família te deixou sobre superar dificuldades? Tenho certeza que a gente tem muito mais em comum do que imagina.